segunda-feira, 27 de março de 2017

Uma carta que não foi enviada



Já faz algum tempo que queria escrever essa carta, mas não tinha forças ainda. E nem sei bem o que vai sair nessas linhas, mas enfim... aqui está ela. A carta que nunca chegou.
A gente começou de uma forma muito intensa e muito diferente do que eu estava acostumado. Uma festa que não tinha muito a ver comigo, uma noite completamente aleatória, um final de noite completamente novo e sem parâmetros. E me vi novamente em seus braços. E gostei de estar lá. Até que, pouco tempo se passou, e já estávamos passando por situações extremas, de choro, brigas, discussões, desentendimentos. Você sempre muito estourado, quase perdido em seus pensamentos e descontroles. Foram tantas palavras ditas nesses dias. Tantas feridas abertas. Tantas dores. E eu nem sei bem como nem por que, mas me vi engolindo coisas que pensei jamais ter de engolir e escolhi seguir em frente com você. Passar por cima do orgulho, das feridas, das dores e seguir adiante com você. E mais uma vez voltávamos pras discussões, pro infantil, pros desentendimentos, pros estouros. Tantas vezes pensei em terminar. Tantas vezes tentei terminar. E todas as vezes você dava um jeito de contornar o problema e me fazer cair nas suas palavras, nas suas lágrimas, nos seus pedidos de desculpa. E lá íamos nós tentar de novo. Mesmo com todos os meus amigos sendo contra, me aconselhando a te deixar, me apontando as coisas “estranhas” e as que pareciam erradas demais. E mesmo assim eu ainda queria tentar. Ainda queria estar com você.
Até que em um certo desentendimento você ameaçou se matar. Deus, como eu sofri aquele dia. Todas as agonias pelas quais eu já tinha passado outras 2 ou 3 vezes comigo mesmo estavam de volta com força total. Chorei, apertei o coração, abandonei minhas obrigações, corri até você, te encontrei. Choramos, conversamos, você se acalmou. Coisas estranhas aconteceram ainda neste dia. Coisas que não se encaixavam. E eu descobri que era mentira. A dor que você sentia e a confusão em que você estava te fizeram fingir uma ameaça de suicídio. Não havia remédio. Você não tinha tomado nada. E fingiu reações que não combinavam com o remédio que disse ter tomado. E me fez reviver todo o meu inferno. Mas então 1 semana se passou e você voltou e prometeu mudar. E nós voltamos. E você realmente mudou. Então estava tudo bem. E lá vai eu de novo passar por outros momentos de humilhação. De lágrimas. De dores. (Você não faz idéia do quanto eu me senti um lixo aquele dia no cinema. Do quanto eu queria sumir. Do quanto estava doendo.)
Veio a festa que você tanto esperava. Carnaval. E eu ia conhecer seus amigos. E no meio de tanta coisa boa, de tanta felicidade, de tantos momentos preciosos eu descubro uma outra face sua. Uma mensagem estranha. Uma conversa fora do lugar. Você me explicou. Eu tentei acreditar. Até que o que eu imaginava se confirmou. 4 meses juntos. 4 meses de conversa com outros tantos homens. Com outros tantos rostos e corpos no celular. Mensagens trocadas inclusive no dia que renovamos nosso pedido de namoro. Como você foi capaz de passar por cima de tanta coisa, de tantas palavras e promessas? Como conseguiu ser tantos personagens ao mesmo tempo? E mesmo no final de tudo, mesmo depois de tanto choro, de tanto drama, de tantos pedidos, de tantas coisas turbulentas, no meio de todos os seus pedidos de perdão e pedidos para voltarmos e tentarmos de novo, mesmo no meio disso tudo você ainda foi capaz de trocar novas mensagens. NO DIA EM QUE ME PROMETEU NUNCA MAIS FAZER AQUILO. Eu não sabia mais no que eu via na minha frente. Simplesmente não era a pessoa que ousei querer amar (e que em muitos momentos eu amei). E menos de 5 horas depois de termos, enfim, terminado, estava você trocando mais mensagens, beijando outras bocas, como se eu jamais estivesse passado pela sua vida. Como se poucas horas atrás você não tivesse me implorado pra tentar de novo, me pedindo perdão e se dizendo arrependido.
Isso me quebrou inteiro. Cada pequeno pedaço que eu já tinha conseguido juntar se esfarelou. Meus joelhos cederam. As lágrimas voltaram. E fui pro fundo do buraco escuro de novo. O vazio que me inundava a tanto tempo voltou a inundar. E eu no meio daquele turbilhão. Sozinho. Em pedaços. E no meio disso tudo eu pude perceber que você não estava só perdido. Você queria estar perdido. Você quis deixar o buraco negro que se instaurou dentro de você abrir sua boca infinita e sugar para si tudo que houvesse ao redor. Você se deixou perder no que era confusão, no que era falha de caráter, no que era festa da mídia. Você começou a gostar de se espelhar em coisas vazias, em mensagens estranhas, em músicas rasas. E se tornou isso. Essa grande massa confusa de nada, onde palavras não fazem sentido, onde promessas não valem nada, onde caráter não dita regras, onde histórias não valem a pena.
Eu ainda não sei como dimensionar o que eu sinto por você. De um lado eu sinto que deveria ter raiva de você. do outro sinto que deveria ter nojo. Do outro ainda sinto um carinho IMENSO pela pessoa que eu conheci em alguns momentos. Em muitos momentos sinto saudade, sinto falta, te vejo comigo. Em outro lado eu sinto pena pelo quanto você se perdeu. E no meio disso tudo sinto decepção, quase que grudando todos os sentimentos. E me perco cada vez mais nessa tempestade de sentimentos tão confusos e quase antagônicos. O que me resta é tentar terminar de digerir essas coisas e seguir em frente. Eu só estava ali. Poderia ser qualquer um. Só que infelizmente era eu.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

~Durma bem...



Eu ainda não sei bem como me sinto. Ultimamente tem sido um vazio imenso que toma conta de mim e dos meus dias. Nada me empolga, nada me alegra, nada desperta meu interesse como antes. Tento, a todo custo, rir e sorrir com as coisas, com as pessoas, com os fatos. Mas o máximo que consigo são algumas horas de uma alegria desbotada e falsa, feita especialmente para dar conforto aos outros enquanto eu mesmo não sou confortado. E assim se vão os minutos, as horas, os dias, as semanas, os meses. E assim se vai minha essência.
E, no meio disso tudo, ainda olho ao redor e encontro solidão. Encontro descaso, abandono, escárnios cochichados ao pé do ouvido (ditos como se eu não pudessem ouvir) e silêncio. E silêncio. Um mar imenso e devastador formado do mais duro e sólido silêncio.
Reviro na cama. Olho os números marcando o horário na tela do celular. Já nem me importo em quantas horas são. Não quero levantar. Não quero começar um novo dia. Não quero. Mas já estou cansado de encarar o teto branco do meu quarto. Cansado de ficar deitado encolhido no canto da minha cama. Cansado de chorar escondido. E, acima de tudo, cansado.
Lembro que já se vão 3 ou 4 meses em que eu tenho chorado praticamente todos os dias. Passei anos sem derramar uma única lágrima, seja ela de tristeza, pesar, arrependimento ou alegria. E agora passo dias a fio entregando um estoque quase inacabável de lágrimas quentes. E é sempre a mesma história: acordar, vazio, vazio, vazio, um aperto no peito, um nó no estômago, algo se mexe lá dentro como se tivesse um bicho estranho subindo até minha garganta. Algo entala na minha garganta. Um nó. E vazio, vazio, vazio. E então, uma a uma, elas saem. Lágrimas transparentes, pesadas, quentes e doloridas, como se eu estivesse chorando cacos de vidro. Como se estivesse chorando a própria dor transfigurada em gotas salgadas. Como se me chorasse.
Até algum tempo atrás eu tinha uma ilusão (muito bonita e muito sólida) de um porto seguro, de um chão firme, de um lugar onde eu me sentia seguro, querido, importante. Até que fatos distintos foram retirando toda a firmeza dessa estrutura. E, apesar de descobrir o que as pessoas falam quando eu não estou por perto ter sido uma experiência interessante, a dor lasciva e aguda que sempre brota em meu peito quando me recordo das palavras duras, secas e insensíveis. É como diz aquele ditado: “A traição só dói porque ela não vem de um inimigo” ou algo assim. E é a mais pura verdade.
Mas ainda assim me pego pensando se eu reagiria diferente se passasse por essa experiência em uma época mais estável da minha vida. Onde meu psicológico não estivesse em frangalhos e minhas defesas não estivessem tão enfraquecidas. Talvez eu confrontasse. Talvez eu fosse atrás de respostas ou só ignoraria (como fiz com outros fatos). Mas não passei por isso em outra época. Passei por isso agora. Onde eu me sinto mais vazio, mais sozinho, mais largado. E eu já nem sei como meu coração ainda bate. Cada vez que acordo eu sinto-o doer. Como se uma agulha grossa e pontuda espetasse o meio do coração, furando o músculo a todo instante, atravessando a carne sem costurar nada.
E todas as noites tenho que respirar fundo tantas vezes, beber água tantas vezes, limpar meu rosto tantas vezes que cada músculo retesado do meu corpo dói. E é nessas horas que fico imaginando como seria não sentir mais essa dor, esse vazio, esse silêncio. Como seria tão mais fácil simplesmente não acordar mais. Não precisar mais abrir os olhos, mexer nos cabelos, caminhar, viver... A janela me parece uma alternativa. Um voo alucinante de 10 andares. Os remédios me parecem uma alternativa. Uma viagem sonolenta de 20 comprimidos. A minha velha conhecida lâmina me parece uma alternativa. Uma antiga amizade de 6 cortes. Mas eu simplesmente queria deitar, fechar os olhos e não sentir mais essa dor que cresce e machuca todos os dias e todas as noites, como se estivesse tão grande que a qualquer momento ela iria irromper pelo meu peito, explodindo meu tórax, expulsando-me de mim mesmo. E eu só queria não ter que acordar mais.
Mas passam-se as horas, passam-se os dias e eu volto a despertar. Eu só não sei ainda até quando.

terça-feira, 2 de junho de 2015

~ A Casa

A casa já está vazia.
As paredes mudas, frias e dormentes.
O ar pesado, grosso... Difícil de respirar, de tocar. Lágrimas salgadas, duras, pesadas e doloridas alagam o chão. As janelas, antes azuis e abertas, agora jazem fechadas, desbotadas e descascadas. A única luz que adentra o lugar é uma linha atrevida de sol que se esgueira entre as frestas. No centro da habitação desabitada, um corpo trêmulo se encolhe abraçando os joelhos. Cabelos desgrenhados, os olhos molhados, pesados, a pele sem brilho, a alma seca. Um soluço entrecorta o silêncio aqui e ali, levando suspiros de dor. Este corpo é meu, mas já não sei o que fazer com ele. Não sei se o quero mais, se o suporto mais. Parece oco, mas pesado demais. O baque foi feio. Certeiro. Surdo. Oco. Certeiro. Duas flechas que jamais esperei. Duas dores que sempre pedi pra não sentir. E agora habito no chão, com a sensação de vazio, de dó. Corto as cordas com a enorme lasca que caiu do coração trincado. Esses laços, essas linhas já não me são tão úteis. Nem tão bonitos. Nem tão eternos. Vejo os fios vermelhos caírem, leves, doloridos, pesados, macios, chorosos. Mais um trincado. E mais um curativo. Um remendo. Uma costura. Ignoro as lágrimas que escapam com seus vestidos de prata. Ignoro a dor que valsa e rodopia em meu peito. Deito no chão ignorando o molhado. Ignoro as batidas na porta.
Suspiro novamente.
Ignoro.

quinta-feira, 27 de março de 2014

~ Serotonina

É como se você gritasse a plenos pulmões e ninguém pudesse te ouvir. Como se você estivesse todo em preto e branco enquanto o resto do mundo fosse tão colorido que chegasse a doer.
Imagine um imenso parque de diversões: muitos brinquedos coloridos e giratórios, com suas luzes brilhantes, suas músicas alegres, o perfume dos doces inebriando o ar fresco da noite, os barulhos suaves das engrenagens limpas, as risadas, os casais transbordando de amor, amigos, famílias, risos, conversas.... e você ali no meio, gritando em desespero, tentando chamar a atenção de alguém. Mas você é cinza e ninguém te vê ou sequer te ouve. É mais ou menos essa a sensação.
É como se você estivesse sozinho dentro de um bote no meio de um oceano violento e pouco amigável. O céu é pesado e repleto de nuvens acinzentadas, como lápides velhas e arranhadas. As nuvens berram seus trovões e cintilam o firmamento com seus raios, tentando te assustar ou até mesmo mandar você embora. E você continua sentado no fundo do frágil bote. O corpo retesado. As pernas flexionadas junto ao peito arfante. As mãos na cabeça, puxando os cabelos desgrenhados. Os olhos abertos costurados de lágrimas. E o grito mudo na garganta. Ninguém vai te ouvir.
A sensação é ver o seu interior se encher de vazio e se pintar de preto, enquanto seu coração chora um negrume sem fim e se aperta cada vez mais. E nesse imenso nada você sente um anzol vindo de lugar nenhum se prendendo no seu umbigo e te puxando pra dentro daquela imensidão de coisa nenhuma. Você literalmente sente o puxão do anzol. E a única coisa que desce é o véu de lágrimas.
Sentado no quarto, colado na parede, deitado no chão. Escorado na pia, as costas na porta, os pés descalços. Muitos são acompanhados de navalhas, leves e afiadas, que se apresentam como velhas amigas. Alguns riscos, alguns cortes, alguns pequenos rios vermelhos. A dor física sobrepõe a emocional. O vermelho tinge a tristeza e te puxa de volta. Mas o dano causado a pele é muito maior do que se pode perceber. A pele não é nada. Porque você não risca a pela. Você dilacera a mente e rasga a alma. E de nada adianta.
Abandona a lâmina, abandona a escrita, abandona o refúgio. Deixa pra trás o que te faz bem e abraça o vazio. Se preenche de lágrimas, se cobre com angústias e deita na solidão. Parece uma poesia bonita e sofrida, mas é realmente o que ocorre.
Sua mente não funciona, seu coração não bombeia, seu corpo não mexe. Seus olhos não se fecham, o sono não vem, a noite não termina. E o vazio continua e o nada permanece.
É como se você pegasse seu corpo e o transformasse em um jarro. Dentro dele são depositados litros e litros de sofrimento, de passados, de lembranças pesadas e dolorosas. O vaso trinca, a cerâmica racha e a pintura descasca. E você continua a sofrer. E o mais engraçado e trágico dessa história toda é que você nem ao menos sabe o porquê está triste. Não teve motivo, não teve gatilho. Simplesmente chegou e tomou tudo que você tem.
E do mesmo jeito que ela veio, ela se foi. Muitas vezes da mesma forma, outras vezes de forma inesperada. E diversas vezes com ajuda.
No mesmo instante que seu corpo vazio e cinzento está sentado no nada, um outro corpo repleto de luz chega, senta ao seu lado e te colore um pouquinho. Doa para seu receptáculo escuro um pouco de luz. Te abraça, te conforta e te ajuda a se erguer.
Já não tem mais vazio, nem lugar escuro e nem anzol. Seu interior brilha uma luz quentinha e tímida que logo te põe de pé. E você recomeça. Se recompõe, se levanta, se propõe novamente a continuar. Mesmo sabendo que pode não valer a pena. Mas sabe que mesmo que nada ao seu redor valha a pena, você mesmo vale a pena. E que isso é muito importante.
É como se as águas guardassem, em seu reflexo disforme os dias que se vão. E que você não precisa mais deles. A não ser aqueles cristalinos e cheios de vida e de luz. E mesmo assim você sabe que isso não dura pra sempre. Sempre terá o anzol, o quarto vazio, a parede fria e o escuro. E mesmo assim você não desiste de lutar.
Sabemos que nossas batalhas são mais pesadas e que nossas lutas são mais escuras. Mas também sabemos que ninguém mais sabe como é estar aqui. E mesmo que eu tenha rabiscado essas linhas, não é a mesma coisa sempre. E jamais será. Também não será igual para os outros e nem ao menos para mim. Mas é a nossa sina. Devemos resistir sem o benefício da sobriedade constante. E resistimos.
Mas é como se você estivesse sozinho, sentado em um banco frio... esperando.
E ninguém viesse te buscar...

domingo, 8 de dezembro de 2013

~ Um navio, um castelo e um colar

Uma intempérie aponta no horizonte. O céu, antes azul e calmo, já sepulta sobre nós uma chuva não tão fina que despenca de um mar de nuvens lapidadas em mármore frio e acinzentado. Nuvens duras e intransponíveis que choram, gritam, ecoam tristes lamentos, criam bocas enormes, sopram ventos que irão uivar tempestades.
O pobre navio jaz frágil no meio do mar revolto. Ondas gigantescas que crescem ainda mais vêm bater seus cabelos de água e espuma na madeira lascada da embarcação. A construção gira, balança e sacode ao bel sabor da tempestade e de seus ventos caprichosos, que sopram as águas, as ondas, as velas, o navio. E o pobre homem que está dentro dele.
No interior do barco um homem chora. Suas vestes já não são mais belas e seu corpo já padece pelas feridas embatumadas que lambem sua pele. Está cansado, com frio e com medo. Sua carcaça repousa pesada no chão frio de madeira, escorado em um pedaço de pau que faz as vezes de pilastra e que sustenta boa parte do piso superior do navio.
O homem parou de chorar. Agora treme, escondendo o rosto sob as mãos calejadas e fracas. E ele olha pra mim, mas não para mim. Seu olhar atravessa meu olhar como uma faca quente na manteiga fresca. Seus olhos são tristes e bordados de lágrimas. Parece querer me dizer alguma coisa. Ele abre a boca murcha e fina. Seu rosto parece retorcido de dor. E ele grita. E continua mirando seu olhar em mim. Mas... ele olha pra mim? O que eu estou fazendo num navio? Acordo de sobressalto. A testa pintada de gotículas de suor, o corpo dormente e endurecido, os cabelos desarrumados. Me localizo no meu próprio quarto, passo as mãos no rosto e no cabelo, os olhos fechados. Bufo. Estava dormindo.
Deito pesadamente a cabeça no travesseiro já não tão mais fofo e encaro o teto branco. O sol ainda não nasceu e nem o canto dos passarinhos eu escuto. No silêncio que agasalha a minha madrugada fria e solitária eu deixo de encarar o teto e acabo encarando a mim mesmo. O sonho que tive pareceu um breve e literário resumo desses últimos dias. Tenho me sentido perdido... perdido e sozinho. Com medo. Como se eu estivesse abandonado no meio de um oceano caótico e não soubesse nem ao menos para que direção tentar nadar.
Minha pacata e rotineira vida deu uma reviravolta em suas poucas voltas que me tirou do eixo e me deixou às voltas comigo mesmo. Os amigos já não parecem se importar tanto, os abraços já não parecem mais tão apertados e acolhedores, as vozes já me soam tão nítidas e melodiosas. E, por causa dessas voltas, reviravoltas e piruetas, me surpreendo perguntando a mim mesmo aquilo que sempre temi perguntar: quem sou eu? Quem, exatamente, sou eu? E por incrível que pareça eu já não sei mais o que responder. Estou perdido.
Antes eu estava na minha torre alta, encarapitado no meu castelo perolado e intransponível. Hoje passeio junto a plebe com minhas roupas rasgadas e rio um riso desdentado junto aos bêbados dos becos escuros e purulentos. Quem sou eu? Já quase não me reconheço ao olhar no espelho... os olhos, os cabelos, as pintas, as curvas... já não fazem mais sentido. Já parecem não completar mais umas as outras. Quem sou eu?
Volto ao meu quarto. Já não tenho mais castelo de pérolas nem a torre mais alta. Volto a ter todos os dentes, o sorriso cheio e o rosto comum. Viro na cama e encaro a parede lisa. Nem um raio de sol entrou pelas frestas da janela (ainda não era hora do sol acordar, mas eu não sabia as horas). E, por sorte ou azar, me lembro de um certo alguém. O olhar, o sorriso singelo e marcante, o rosto bonito. A testa lisa, os cabelos lisos, as mãos lisas. Inúmeros encontros noturnos, beijos no meio da tarde, mãos entrelaçadas. Uma corda no pescoço.
Pensei, erroneamente, que já estava preparado. Que nada mais me atingiria. Confiei demais nos calos que calejaram meu ser e nas inúmeras barreiras e portões que coloquei em mim mesmo. Confiei demais. Sei que não me entreguei por inteiro. Respeitei meus próprios limites, suas próprias fronteiras, nossas próprias barreiras. "Eu gosto de você..." E, assim, me coloquei em um lugar que não era meu. A queda foi dura, silenciosa, vazia. Pensei ter atingido um ponto que eu nem ao menos cheguei perto. Iludido pelo meu próprio ego. Subi no topo da montanha, admirando a enseada logo abaixo. Subo no galho da frondosa árvore que está logo abaixo de mim, sentando confortavelmente em seus galhos. Algo me incomoda a garganta. E caio. Sem tocar o solo. A corda no pescoço me segurou. (In)Felizmente.
Acordo novamente. Os olhos abertos no supetão do susto. Pisco algumas vezes. Volto a mim mesmo. A tela do celular incomoda. A luz está forte demais. Mesmo assim forço a vista e deslizo o dedo pela tela. Conecto-me num ambiente imenso e repleto de tudo. Mas ainda assim vazio pra mim. Como se eu estivesse andando por um salão de festa e as pessoas simplesmente desaparecessem a medida que eu caminho em direção ao centro da pista. Como se a luz fosse tragada por mim, assim como um buraco negro que desliza sorrateiro por uma galáxia e puxasse para seu próprio vazio cada centelha de tudo e mesmo assim permanecesse vazio.
Mas, quem sou eu? Sou o navio? O homem? O castelo? O plebeu? O ser preso confortavelmente no alto da torre? O iludido? Quem sou eu?
Não sei responder. Pelo menos não agora. Vou me voltar para mim mesmo. Tentar encontrar a direção enquanto tento boiar no mar revolto. Se as velas do meu navio ou as paredes do meu castelo ainda conseguirem resistir à fúria tempestuosa dos ventos e das ondas, conseguirei encontrar o norte, a terra prometida, o solo fértil. Ou não.
Meu corpo flutua envolto nas águas do mar furioso. O azul profundo me cerca. Gostas caem no meu rosto apavorado. Olho pesaroso para o céu e estendo a mão, suplicando para que alguém que estivesse acima de mim me puxasse, me salvasse. A única resposta que tive foram as gotas finas e geladas que continuaram a cair no meu rosto encharcado. Um trovão ressoa retumbante e forte no firmamento. O coração acelera, o sangue aumenta sua velocidade, o corpo treme.
Abro os olhos novamente. Cochilei. Estou na minha cama... de novo. Viro pro outro lado encarando a porta. Me cubro para tentar proteger do frio sereno que a noite está soprando. Algo me incomoda. Coloco a mão no pescoço. A corda!

...

E o navio afundado que nunca afunda continua a ser lançado pelos ventos. Os cabelos de espuma e água das ondas nervosas continuam a bater no casco. O velho ainda está tremendo.


...


A figura disforme ainda está arrumando sua coroa brilhante no alto de sua torre mais alta. O castelo continua a brilhar suas pérolas. O plebeu continua a dançar uma dança pagã e cigana. Os dentes ainda faltam.


...

O corpo ainda balança para lá e para cá com o colar de corda no pescoço...

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