sábado, 23 de março de 2013

~ Inocência


Snydersville era uma aldeiazinha simples no interior da Pensilvânia. Não tinha muita coisa para se fazer, mas todos os habitantes se conheciam e se ajudavam como podiam com seus trabalhos e habilidades. O maior evento da cidade era um concurso de tortas que acontecia em março para marcar o início da primavera e reunia toda a cidade. Fora isso, somente as conversas na porta de casa, os encontros no único bar e os frutos do bom e honesto trabalho da cidade.
Maggie era uma garotinha miúda que morava no número 13 da James Street de Snydersville. Maggie tinha 8 anos recém comemorados, era baixa, branca feito uma boneca de porcelana. Os cabelos dourados estavam sempre caídos nas costas, com uma fitinha de cetim vermelha amarrada num laço sobre a cabeça. Tinha olhos grandes e verdes e algumas sardinhas tímidas pintavam o entorno do pequeno nariz da menina.
O número 13 da James Street era ocupado por uma casa de dois andares, feita de madeira e construída pelo bisavô de Maggie. A casa era pintada de um creme claro, com janelas grandes e azuis. A varanda tinha uma cobertura de um marrom forte e robusto e era enfeitada por duas grandes e confortáveis poltronas, dispostas em cada um dos lados de um sofá branco com almofadas coloridas. A propriedade tinha um jardim modesto, com algumas rosas e um pessegueiro plantado entre as margaridas na parte da frente, bem debaixo da janela do quarto de uma garotinha de fita no cabelo. Era uma boa casa com bons habitantes. A família de Maggie era composta pela mãe, Janne, que era costureira e uma versão envelhecida e sorridente da filha; pelo pai, Thomas, um mecânico gorducho e risonho e pelos irmãos gêmeos, Timmy e Dimmy, com seus 13 anos e suas travessuras de moleque. Uma boa família.
O calendário vermelho em cima do fogão da cozinha simples e bem arrumada marcava 25 de julho. Era verão e o vento morno que passava entre as casas e varria as ruas com seu hálito quente bagunçava os cabelos cor de sol de Maggie. A garotinha estava sentada no balanço da praça central da cidade, protegida pela sombra de um poderoso carvalho e balançava pra frente e pra trás sacudindo, alegre, os sapatinhos roxos encaixados em seus pés. Gostava de colocar a cabeça pra trás enquanto balançava, imaginando que estava voando e era um passarinho, livre pelos céus, amiga do ar e íntima das nuvens. Seus irmãos estavam brincando com os amigos em um casarão abandonado, inventando poderes e lutas contra vilões e suas máscaras de pano. Uma tarde agradável ao ar livre, uma sexta-feira pela metade e um sol forte e laranja borrando o céu com seus raios de luz. Um dia perfeito de verão.
Depois de muito brincar e correr com os amigos, Maggie ouviu a mãe chamando pra voltar para casa. Já eram 17h e era hora de tomar banho e se preparar para jantar. Despediu-se dos colegas e correu ofegante até o batente da porta, estalando um beijo suado no rosto animado da mãe, correndo em seguida em direção ao banheiro que já a aguardava com uma grande banheira repleta de espuma e água fria. O dia terminara com um jantar em família e uma torta de amoras de sobremesa servida com sorvete de baunilha. Maggie foi dormir cansada e feliz. A noite começara e em poucos minutos a casa estava afogada em um silêncio gostoso que se entrecortava com os roncos do pai e as respirações pesadas da família.
Os primeiros raios de sol invadiram o quarto de Maggie, passando sorrateiros pelas frestas das janelas e começando a preencher o ambiente com o calor acolhedor da manhã. A menina piscou algumas vezes, bocejando e espreguiçando-se. Lembrou que era manhã de sábado e pulou da cama, correndo animada para o banheiro para se lavar. Iria visitar a avó Samantha, em Phoenixville, e todos tomariam a famosa limonada da Dona Sam juntos no quintal da casa grande e colorida que Maggie tanto amava. Desceu a escadaria, já enfiada em um vestido amarelo de saia rodada, sem mangas e com algumas rendinhas brancas contornando a peça. Calçava um par de meias finas e brancas e os pés estavam escondidos em um sapatinho amarelo vivo. Os cabelos estavam como de costume: soltos em cascata pelas costas, com uma fitinha preta amarrada em laço encarapitada no topo da cabeça. A família já estava quase toda pronta, faltando apenas a mãe que estava calçando os sapatos de salto baixo. Os irmãos, igualmente animados, vestiam macacões jeans com uma camisa listrada por baixo e já corriam para o carro, seguidos por Maggie.
Partiram para a casa da avó no carro da família. Era uma viagem rápida, não mais que uma hora e eles chegariam bem antes do almoço. Foram animados, curtindo a brisa fresca e cantando animadas músicas do coral da igreja, com risadas e muitas palmas. Desembarcando na grande casa colorida com jardim florido, as crianças já correndo para os braços da avó, sendo imediatamente cobertas de beijos e abraços. Os pais desceram mais devagar e cumprimentaram a mulher com sorrisos e mais abraços. Samantha já tinha seus 75 anos e as rugas já emolduravam o rosto de sorrisos constantes. Estava trajando um vestido laranja florido e sapatos confortáveis e beges, com uma florzinha de crochê junto ao botão. Entrou na casa junto da família e pôs-se a conversar sobre a vida e perguntar dos netos.
Enquanto a avó conversava com os pais e terminava de preparar o almoço, as crianças corriam animadas pelos dois andares da espaçosa casa, hora se escondendo, hora procurando os escondidos. Almoçaram animados e risonhos, contando novidades para a avó e rindo das piadas do pai. O almoço poderia servir um batalhão da infantaria: travessas de purê de batata com molho, bolo de carne, dois tipos de arroz, vegetais no vapor, uma panela fumegante de feijão e um grande peru assado com laranjas e abacaxi. E ainda tiveram o famoso pudim com creme que Samantha fazia com grande maestria.
Depois de almoçarem, a família arrumou a mesa e ajudaram a lavar as louças. Samantha subiu com o casal para a sala do segundo andar para verem algumas fotos enquanto os gêmeos já estavam no quintal subindo na árvore e brincado de pirata. Maggie pediu dinheiro ao pai para ir até a venda da esquina comprar limões para fazerem a limonada que tomariam à tarde, sentados nas espreguiçadeiras que repousavam debaixo do flamboaiã do jardim. Correu porta afora, animada, segurando firme o dinheiro que seu pai lhe dera.
Maggie atravessou a rua deserta e começou sua caminhada pela calçada vazia até a quitanda da esquina. Vinte minutos eram mais que o suficiente para ir até a vendinha, comprar os limões e voltar para a avó. Pulou as linhas da calçada e saltitou para dentro da quitanda, pedindo os limões para o atendente bigodudo. A menina riu sozinha quando pensou o quanto ele parecia com a morsa que vira no filme que passou na TV durante a semana. Pegou o saco com as frutas esverdeadas e saiu da loja. Logo ao lado, crescendo pelas frestas da calçada, um ramo de flores silvestres enfeitava a rua. Seria ótimo poder presentear Samantha com elas. Resolveu colher algumas, escolhendo as cores que mais gostava. De repente tudo que sentiu foi uma mão grande e grosseira tapar sua boca.
Tudo fora muito rápido. Maggie estava abaixada com os cabelos caindo de lado, pegado algumas flores quando sentiu a mão tapar-lhe a boca e arrastá-la para os fundos da loja. Fora jogada sem muita delicadeza no chão frio e teve as pernas, que se sacudiam com a fúria e o desespero de uma garotinha, presas por fortes pernas grossas enfiadas em um jeans sujo e escuro. O vento soprava quente pela cidade soltando os dentes-de-leão pelo ar. Uma menina jogada no chão com um corpo truculento sobre o seu, o vestido sujo sendo levantado, a braguilha do jeans escuro sendo aberta e as lágrimas derramadas dos olhinhos abertos e amedrontados. Maggie sentia a mão áspera tapar-lhe a boca com os braços fortes a pressionar seus ombros delicados. Uma de suas mãozinhas finas apertava o braço do homem, enquanto a outra segurava com força o pacote com os limões. Sentiu algo duro e quente tocando a parte interna de suas coxas finas. A dor. A agonia. A dor. E então, tudo ficou escuro.
A menina abriu os olhos com dificuldade. Estranhamente estava com sono e as pálpebras pesavam. Não enxergou muito bem, apenas figuras e cores borradas. Mas podia ouvir os pais gritando seu nome, a mãe chorando alto e os soluços graves do pai. Não conseguia se mexer. Era estranho: o corpo pesava, as pernas doíam, as costas latejavam, a cabeça girava e os braços estavam doloridos. O homem de jeans escuro já havia partido muito antes da família chegar, levando consigo um rastro de fumaça que saia do cigarro que tragava e uma inocência roubada, fruto de seu último furto.
A ambulância chegou com suas sirenes estridentes e suas luzes giratórias. A menina foi levada para o hospital da cidade, junto com um casal de pais desesperados e chorosos. Na calçada aos fundos da vendinha, um saco plástico com limões estava esquecido, junto de uma fitinha preta e amarrotada. Ninguém tomou limonada naquela tarde...

~ Artemis, parte 2

                - Artemis. O que você vê?
                ...

                Um novo dia de treinamento começara. Victória estava no Campo 4 criando mais e mais coisas. A menina ia melhorando a olhos vistos e já conseguia criar, com exatidão, boa parte das coisas que os instrutores mandavam. Selena, a instrutora-geral, dizia que se Victória conseguisse controlar seus poderes ela seria de grande valia e teria um poder incrível nas mãos. Caleb treinava no Campo 7, onde era colocado novamente sob a mira de uma atiradora de bolinhas. O campo de força do garoto já estava mais forte e ele conseguia se proteger de todas as bolinhas de pano e de boa parte das bolinhas de plástico endurecido. Selena já estava preparando um novo treinamento para dar início assim que Caleb concluí-se aquele nível. Faria o garoto criar múltiplos escudos e depois fazê-lo criar campos de força à distância.
                Já tinha pouco mais de um ano que ambos estavam no "Santuário" e suas habilidades já estavam muito mais maduras e disciplinadas. Encontravam-se todos os dias antes dos treinamentos e na hora dos intervalos. Artemis era a que eles menos viam. Cada dia e cada semana eram diferentes: tinham vezes que a menina participava dos intervalos junto com eles, outros ela não era vista o dia inteiro, outros era dividido e ela aparecia em alguns intervalos e em outros dias apenas na hora do almoço. Tinham casos em que ela ficava até 2 ou 3 semanas sem ser vista. Mas quando aparecia, sempre estampando a mesma cara cansada e as olheiras profundas, dizia aos companheiros que estava em um novo treinamento e por isso andava sem tempo para fazer os intervalos conjuntos e sorria meio abatida.
                No ano anterior Artemis explodiu um dos complexos de teste. Ninguém sabia o porquê nem o que realmente acontecera, apenas boatos ("A bruxa tentou escapar!" ou "Ela perdeu o controle com um dos feitiços" ou ainda "Os instrutores tiveram que salvá-la de um incêndio que ela mesma provocou!"). Mas ninguém comentava absolutamente nada quando a garota se juntava aos demais. Mas ela sabia que cochichavam a seu respeito e não dava muita importância praquilo. Ela sabia a verdade. Sabia que havia sido levada ao extremo durante o treinamento. E não podia acreditar que eles tinham usado Gabrielle pra isso.
                Gabrielle era a meio-irmã de Artemis. Se conheceram quando tinham 5 anos e viveram juntas desde então. Ambas eram "Abençoadas" e entraram juntas no "Santuário": Gabrielle tinha o poder de curar as pessoas com apenas um toque. Bastava que ela encostasse as mãos no corpo da pessoa para que o ferimento se curasse por completo. Demorava um pouco, mas ela sempre conseguia. Ela tinha um dom incrível e Artemis a amava. Ela era um pouco mais baixa que a irmã mais velha, a pele era mais clara e os cabelos curtos e eriçados, que a menina insistia em metê-los embaixo de uma boina, chapéu, touca ou tiara. Os olhos eram pequenos e castanhos bem escuros, escondidos atrás das lentes transparentes dos seus óculos.
                As meio-irmãs foram enviadas ao "Santuário" quando ainda tinham 9 anos. Dormiam no mesmo quarto, treinavam juntas e passavam cada segundo de cada dia juntas. Os treinamentos começaram bem devagar: Gabrielle tinha de curar pequenos cortes feitos nos instrutores e Artemis precisava voar por entre arcos e obstáculos no teto das salas de treinamento. Intensificaram os treinos a cada mês. Depois de um ano Gabrielle já conseguia curar feridas maiores sem muito esforço, algumas doenças e já começava a ter algum sucesso em regenerar partes do corpo, enquanto Artemis já poderia criar e destruir praticamente tudo, já voava com perfeição e suas previsões estavam mais certeiras.
                Tudo estava indo bem. Bom, pelo menos estavam vivas e eram bem tratadas. Mas as duas viviam cansadas e dormiam antes mesmo de deitarem a cabeça no travesseiro. Acordavam cedo e dormiam tarde. Tinham mais treinamentos que os demais e eram pressionadas a fazer muito mais do que fizeram no dia anterior. E quando completaram 2 anos de "Santuário" é que as coisas ficaram piores. Com o avanço estupendo das meio-irmãs, os instrutores passaram a intensificar cada vez mais rápido os treinamentos e os testes. Ambas já dominavam quase que por completo os poderes. Em um dos testes, as garotas foram colocadas em uma sala dividida ao meio por um grosso vidro transparente, cada uma em um lado. O teste consistia em Gabrielle ser ferida e ter de se curar sem se tocar, enquanto Artemis assistia tudo enquanto lutava com os robôs e instrutores. A cada 5 minutos a força de cada lado era aumentada, chegando ao ponto de Gabrielle ter pequenas partes do corpo arrancadas e Artemis ter de prever cada movimento dos adversários para conseguir escapar dos múltiplos ataques e atacar de volta.
                Artemis caiu com o ataque de um robô que veio do teto. A previsão chegara devagar demais. Enquanto isso Gabrielle era surrada e cortada de diversas formas, regenerando cada pedaço e corte q era feito, mas mais devagar que antes. Ambas suavam frio e tinham os corpos cansados e doloridos. De repente os ataques pararam. Ambas ficaram no chão, arfando cansadas. Gabrielle tentava curar um corte profundo no braço esquerdo e Artemis tentava se levantar. Uma voz ecoou pelo local, grave e profunda:
-Muito bom, meninas. Agora vamos ver o que vocês podem fazer quando há mais coisas a serem arriscadas._Mãos metálicas surgiram da parede e agarraram os braços e pernas da mais nova. -Artemis, sua missão é salvar Gabrielle. Se você demorar demais, os membros da sua irmã serão arrancados. Vamos começar?
                Gabrielle estava presa pelas garras de metal, cansada e ofegante. Mal conseguira curar o último corte. Olhava para a irmã através do vidro grosso que as separava e sorriu apática. Artemis se levantou com dificuldade. Fechou momentaneamente os olhos enquanto os cabelos eram levantados por uma leve brisa. Concentrou-se ao máximo. Quando gesticulou os dedos em direção à parede, sirenes muito agudas foram acionadas, emitindo gritos e ruídos altos. Jatos de luz, clara e forte, foram jogados em direções caóticas e giravam sem sentido pela sala. Artemis caiu de joelhos tapando os ouvidos e gritando. Não conseguia se concentrar e sua cabeça doía numa agonia profunda. Olhou para a irmã que também gritava de dor, enquanto seus membros eram apertados e esticados pelas garras de metal. Artemis via a meio-irmã se esforçando para que as feridas provocadas pelas mãos metálicas se curassem, mas o resultado era quase nulo. Tentou mais uma vez se levantar e estourar o vidro, mas o símbolo dourado que saiu de seus dedos trêmulos conseguiu apenas trincar a parede.
                Aquilo durou apenas 2 segundos, mas Artemis sentiu como se tivesse demorado horas, talvez dias: a perna direita de sua irmã havia sido arrancada do corpo, enquanto rios de sangue brotavam da ferida aberta e a garota se contorcia de dor num grito alto e agudo, tendo o rosto encharcado de sangue e lágrimas. Um brilho vermelho.  Tudo ficou escuro de repente.
                Artemis acordou caída no chão frio da sala que estava destruída e chamuscada, com marcas negras onde chamas haviam passado percorrendo todo o ambiente. As pontas dos dedos estavam igualmente queimadas e a cabeça doía e pesava como nunca. Não havia mais teto no lugar e o vidro grosso e forte jazia em cacos pela sala. O lugar onde Gabrielle tinha ficado cativa das mãos metálicas estava vazio e algumas manchas de sangue seco eram a única coisa que restara da garota. Um homem em roupa militar e coturnos muito limpos se aproximou de Artemis, olhando com desdém para a garota.
-Isso é o que acontece quando não se consegue controlar as próprias habilidades. Graças a sua fraqueza e descuido, Gabriele está morta. E não fomos nós que a matamos. Seu rompante de fúria explodiu e dizimou tudo que havia nesta sala. Incluindo sua irmã. O que você fez, Artemis? Tudo isso é culpa sua!
                Não podia acreditar naquelas palavras. Gabrielle estava morta? E ela tinha sido a culpada? Não, não podia ser verdade. Artemis chorava baixo, meneando negativamente a cabeça e murmurando “Não.. não... não...”, os olhos estatelados como uma louca agourenta, os cabelos bagunçados, as lágrimas correndo livres pelo rosto. Cada parte do seu corpo tremia. Nada em sua mente fazia sentido e um profundo e desesperador vazio inundava seu ser. Artemis nunca mais foi a mesma depois desse dia. Sonhos, pensamentos perturbados, um constante vazio, uma constante solidão, um profundo desespero. E, por menos que ela soubesse, mais poderosa. Mas continuava ali, treinando e enfrentando os testes, imaginando se um dia conseguiria domar seus poderes com perfeição e conseguir, de alguma maneira, trazer Gabrielle de volta a vida.
                Artemis sacudiu a cabeça, eliminando as memórias do passado de sua mente. Estava saindo da sala de testes. Voltou ao presente, depois de ser inundada pelas memórias sofridas. Continuou caminhando para fora do complexo. Suas roupas ainda eram as mesmas: uma camisa de força branca com diversas fivelas e correias pretas que ficavam soltas a maior parte do tempo arrastando as mangas compridas até quase tocar o chão, uma calça igualmente branca e sapatos fechados. Atravessou as sólidas portas de metal e saiu para o pátio banhado de sol. Percorreu os olhos pelo local e encontrou a dupla que buscava: Caleb e Victória estavam sentados debaixo da mesma árvore de sempre. Rompeu a distância entre eles, se juntado aos amigos para rir um pouco e conversar. O restante do dia passou calmo e sereno. Artemis ganhava um pouco mais de força sempre que via os únicos amigos daquele “Santuário”. Ter esses breves momentos de normalidade em sua vida e mente caóticas eram seu céu, seu paraíso, sua recompensa. Não podia desistir. Em algum lugar, Gabrielle esperava para ser trazida de volta.


~ Continua

~ Pinocchio

Era uma vez um pedaço de madeira. E era uma vez um garoto carpinteiro.
        
Era uma vez uma casa de madeira. Era uma vez muitas coisas de madeira. Era uma vez uma família. E era uma manhã chuvosa.  Um pequeno menino carpinteiro observava o pai talhar num grande pedaço de madeira um relógio cuco encomendado pela duquesa. Já tinha aprendido o ofício com o pai, mas não se cansava de observar aquelas mãos grossas e ágeis criando, a partir de pedaços toscos tirados uma árvore, objetos tão delicados e perfeitos. Para o menino, aquela era uma das melhores coisas que se podia observar: ver o pai transformar a matéria prima nodosa em algo esplendorosamente magnífico e cheio de significado. Nem ao menos se atrevia a piscar.
A casa era simples, mas muito bem cuidada. Tinha uma grande sala, com uma mesona bem no centro, relógios adornando as paredes e prateleiras. Alguns quadros recheados de rostos sorridentes estavam pregados junto às paredes, servindo de vizinhos aos relógios. Havia um grande tapete cobrindo boa parte da sala, entregando à madeira do chão uma vastidão de cores e padrões tecidos a mão pela falecida esposa. Logo adiante ficava a cozinha e a copa, onde se podia ver outra mesa e 6 cadeiras adornando-a. Um vaso branco com flores do campo enfeitava o centro da távola familiar e 2 bibelôs de madeiras ao lado do jarro completavam a cena. O quarto era divido entre pai e filho, com duas camas espaçosas e confortáveis. A ala adjacente servia de carpintaria e fazia as vezes de depósito para os produtos fabricados.
O menino sentou em um banquinho e começou a trabalhar. Pegou um pedaço pequeno de madeira e talhou uma mulher com um vestido longo e uma trança descendo pela nuca e serpenteando até a cintura. Não que chegasse ao menos perto da perfeição do carpinteiro mais velho, mas era uma boa obra. Gepeto gostava de tentar imitar o pai. Desde sempre tentou aprender o ofício da família e já conseguia, sozinho, fazer algumas peças e até alguns relógios simples. Tudo ali havia sido feito pela família. Desde a casa até os talheres. Tudo de madeira. Tudo artesanal. Tudo repleto deles.
Eustáquio era o um dos melhores e mais respeitados carpinteiros do reino. Pessoas vinham de longe para encomendar suas peças, inclusive a realeza. Mesas, tábuas, relógios, adornos e, vez ou outra, bonecos e marionetes. Ensinava tudo para o pequeno Gepeto, passando o legado da família adiante e gabando-se de ver o filho seguir seus passos tão habilidosamente. Gepeto conseguiria fazer tudo o que ele fazia e até mais. O garoto tinha dedos compridos e ágeis, conseguia talhar rápido com cortes precisos. Um talento nato. De família.
Certo dia Gepetto resolveu colocar em prática e em teste tudo que seu pai havia lhe ensinado. Foi até os fundos da casa, pegou um grande pedaço de madeira e começou a entalhar uma marionete. Seria um desafio, visto que o tronco era praticamente da altura do menino e ele sempre esculpira em pedaços que nem chegavam perto da sua cintura ou cabiam na palma da mão. Criou primeiro o corpo. Fez os braços, as pernas, o tronco, articulações. E, com isso, o pedaço de madeira ia ganhando forma. Já estava praticamente montado: encaixou as partes, colocou as pequenas roldanas, enlaçou as presilhas que serviriam para os fios e fez os detalhes da roupa. Uma camisa, um macacãozinho, dois botões. Os sapatos já estavam prontos e só faltava calça-los nos pés de madeira. Agora estava entalhando a cabeça. A fez redonda, com pequeninas orelhas nas laterais. Almoçou rápido para voltar ao trabalho depressa. As mãos pequenas estavam cheias de pequenos cortes e começando a calejar. Mas estava animado com o que estava produzindo. Pintou as roupas, luvas, um risco de lábio sorridente e grandes olhos castanhos, abertos, atentos. A marionete seria Pinocchio, seu novo melhor amigo e companheiro inseparável.
Já estava quase terminando. Encaixou a cabeça no topo do corpo já pintado, pregou nas articulações e testou os movimentos. Iria deixar o boneco junto às outras marionetes no galpão, esperando a tinta secar para poder colocar os fios e começar a controlar seus movimentos. Estava tudo indo bem. Ouviu o pai chamando para o jantar. Foi até a sala, deixando a marionete secando sobre a grande mesa de trabalho. Gepeto foi dormir cansado pelo dia de trabalho, mas feliz por ter feito o boneco. A marionete já estava seca e com as cordas a postos. No outro dia seria testada e eles poderiam, finalmente, se tornar melhores amigos e viverem aventuras maravilhosas.
Durante a noite, uma luz azulada surgiu no galpão. Começou tímida, serena, fraquejando. Aos poucos, tornou-se um clarão azulado, brilhando raios de luz e estrelas por todo o local. Uma Fada Azul surgiu em meio aos tom celeste, pairando sob o chão. Era uma belíssima mulher: jovem, com cabelos loiros e lisos que desciam em cascatas de fios até abaixo dos ombros; acima da imensidão de fios dourados repousava uma tiara de cristal e pedrinhas azuis cintilantes. Seu vestido era de seda pura e brilhava tênue uma claridade azulada, acompanhando o movimento gracioso de duas grandes asas transparentes e cintilantes, com algumas formas prateadas adornando o centro das mesmas.
A fada levitou elegante até a mesa dos carpinteiros. Olhou bondosa para a marionete de Gepeto e sorriu. Tocou a marionete recém-construída com sua varinha condão e disse:
_Querido Pinocchio, dou-te agora o dom da vida. Seja bom e virtuoso, não mintas e obedeças aos mais velhos. Se assim o fizer, tornar-te-ei um menino de verdade. – Girou o topo da cabeça do boneco de pau com a varinha de condão, fazendo com que o boneco piscasse um par de vezes. Quando o boneco começou a movimentar os dedos das mãos, a fada se foi num clarão, desaparecendo num instante.
Depois de ser tocado pela magia da fada, o menino de pau começou a mexer os dedos, os braços, mãos, pernas e pés. A única coisa que não se movia era a boca pintada, estampando eternamente um sorriso fino que preenchia, num risco, a face de madeira. Girou a cabeça, piscando os olhos, e mirou o chão. Pulou desastrado e caiu esparramado no chão. Chacoalhou o corpo de pau e caminhou meio cambaleante até o interior da casa, com os fios sendo arrastados pelo chão e o rosto sempre sorridente, os olhos brilhantes na penumbra da casa.
Enquanto caminhava trôpego pelo chão revestido pelo tapete colorido, Pinocchio olhava os relógios, as molduras, os móveis de madeira. O rosto de madeira com seu sorriso eterno mirava cada detalhe da casa. Piscou os olhos brilhantes e adentrou o quarto dos carpinteiros e ficou observando os dois humanos adormecidos, com o mesmo sorriso no rosto amadeirado. As horas passaram devagar. O menino acordou sonolento no meio da madrugada, sentindo um leve peso nas pernas. Ao olhar mais atentamente percebeu que suas pernas e braços estavam amarrados por muitos fios e presos na cama. Ao lado, seu pai amordaçado por um lenço tentava desesperadamente escapar dos fios que também o atavam à velha cama.
Caminhando em direção ao carpinteiro mais velho, uma marionete sorridente vinha desfilando num passo falho e sem muita coordenação com uma lâmina de barbear nas mãos. O menino de pau olhou contente para o velho senhor que o olhava apavorado e suando frio. Subiu na cama e colocou-se sobre o peito do velho senhor e mirou o rosto levemente enrugado. O rosto de madeira estampando o mesmo sorriso fino e o rosto de carne estampando o horror em cada centímetro de pele. A lâmina cortou precisa e bailou filetes grossos de um líquido vermelho pelo pescoço do pobre senhor. Observou um pouco o humano azar um rio vermelho. Virou a cabeça oca para um Gepetto assustado que gritava desesperado.
Pinocchio pulou infantil para o chão e deste para a cama do pequenino carpinteiro. Acariciou o rosto banhado em lágrimas, a cabeça de madeira caindo leve para um lado, como se admirasse o garoto. O sorriso continuava estampado no boneco. E lâmina fez seu caminho mais uma fez, ceifando a vida do jovem e levando-a num filete grosso e vermelho. Ficou ali observando um pouco. Desceu da cama e percorreu o caminho até a sala, jogando os dois lampiões acesos no chão, produzindo um tilintar de vidros estilhaçados, de ferro contra a madeira do chão e um barulho surdo das chamas se espalhando rápidas pela casa. Correu para fora e atravessou a rua, enquanto as chamas lambiam cada centímetro daquela casa de madeira, encerrando em fogo e fumaça a história dos dois carpinteiros.
E, enquanto a noite findava e as chamas cresciam, Pinocchio valsou pelas ruas com seus fios ao vento e um eterno sorriso nos lábios. Parou sob o umbral de uma porta e caiu estático. Naquela manhã, logo após o leiteiro passar, uma menina de tranças grossas e castanhas deitava o boneco de pau na cama e batia palmas felizes por ter um novo brinquedo. Sentou na frente do boneco e cantou melodias infantis e canções de roda, girando com o boneco pelo quarto. Quando o dia se extinguiu e a noite já dominava há muito tempo o topo dos céus, um grito agudo percorreu a cidade silenciosa, uma casa pegou fogo e uma menininha nunca mais cantou.
O menino de pau já estava caído, sorridente, escorado na porta vizinha, enquanto seus olhos de tinta reluziam o brilho vermelho da fera de fogo que tragava a casa da esquina, consumindo com as chamas dois pais eternamente adormecidos e uma figura pequena de tranças grossas que gotejava na cama fofa.

segunda-feira, 11 de março de 2013

~ Cora, parte 3



Estava sentada naquela salinha absurdamente clara. As paredes eram um branco gritante com móveis marfim aqui e ali. Uma estante abarrotada de livros multicoloridos repousava no canto esquerdo da sala, ocupando toda a parede lateral. Do lado direito havia um estante com diversos porta-retratos com um tom de creme irritante, de onde duas crianças loiras e muito gordas sorriam meio abobadas para a menina. Havia um solitário pato cinza feito de gesso no canto da estante (o que Cora achou muito idiota) e duas pedrinhas de cristal no meio. Alguns livros e pastas de arquivo adornavam a parte inferior da estante, entulhando com sua cascata de papel as prateleiras finas e estreitas de madeira. Na sua frente, uma mesa clara com um tampo de vidro muito polido e limpo, onde se viam diversos papeis e canetas, uma xícara brancamente irritante, pastas, mais fotos das crianças gorduchas, uma planta meio morta e uma senhora gorda sentada numa poltrona amarelo claro. Tudo naquela sala era irritantemente claro demais.
A doutora Kátia W. Chapperton era uma senhora de uns 50 anos, acima do peso e sempre muito sorridente. Os cabelos eram castanho tingidos e ficavam sempre presos num rabo de cavalo encarapitado no topo da nuca, presos por um lacinho amarelo brilhante. Os olhos escuros eram adornados por um bique de pés de galinha e uma pinta preta e saliente com dois lindos pelos morava na ruga próxima à orelha esquerda. Cora observou a mulher gorducha, que estava enfiada em um vestido de seda lilás que certamente não era seu número, os pés atochados em um saltinho do mesmo tom e uma meia-calça clara e com um fio puxado e pensou logo em uma porca branca enfiada a contra gosto em um vestido de festa. Não queria estar ali, mas estava atrás de resposta tanto quanto seus pais.
Depois do escândalo que aprontou após ver a marca da mão nos seus tornozelos e da gritaria que arrumou quando seus pais insistiam que não havia nada naquele tornozelo fino, eles se encaminharam para a sala da psicóloga procurando alguma resposta, algum caminho a seguir, algum conselho ou quem sabe um remédio. Os pais conversaram durante longos e entediantes 45 minutos, enquanto a menina aguardava na sala de espera. Era uma salinha pequena e toda amarela, num tom que parecia sorvete de creme derretido. Alguns quadros de moldura branca pintavam aquelas paredes enjoativas aqui e ali, enquanto uma mesa e uma estante de livros serviam de fortaleza para a secretária magrela e de dentes brilhantes que ficava num tecla-tecla sem fim naquele computador branco e barulhento.
Quando finalmente deixou o mar amarelo, Cora entrou na sala mais irritante que já havia entrado. Precisou de alguns segundos e umas piscadas rápidas de olho para se acostumar a tanta claridade. Entrou, sentou-se na cadeira BRANCA, no meio daquela sala BRANCA, de frente pra mulher que mais parecia uma porquinha sorridente. Estava deveras irritada, queria ir embora, mas prometera aos pais que iria contar cada detalhe e responder cada pergunta para a senhora Chapperton. E assim ela fez. Respondeu sobre algum possível trauma, dialogou sobre os pesadelos constantes, pontuou as visões, esclareceu sobre as horas que passou acordada, nomeou as amigas e discursou sobre o dia-a-dia. A mulher apenas concordava, dava uma risadinha irritantemente estridente e anotava qualquer coisa num bloco de folhas e começava com mais perguntas que saiam sem fim por detrás daquela boca absurdamente sorridente. “Irritante!”
No final daquela hora (que Cora jurava de pés juntos que tinham sido pelo menos 6 longas horas), a psicóloga chamou os pais da menina e a tortura começou. Disse aos pais. e vez ou outra dirigia-se à menina, que aquilo não passava de estresse, que o cérebro e o subconsciente da garota apenas reagia aos impulsos sofridos pelo que ela via nos pesadelos, fazendo com que ela pensasse que aquilo era real, que não teria fim e que ela poderia ter criado um mundo de onde ela jamais sairia e que nunca poderia ser liberta. Cora ouvia tudo incrédula, enquanto os pais se agarravam naquelas palavras e meneavam com a cabeça a cada frase da mulher-porca. Saíram do oceano branco e amarelo com uma Cora encaminhada a uma terapeuta a cada 5 dias.
Em casa, jogou-se cansada na cama, tirando os sapatos com os pés e deixando-os onde caíram. Fechou os olhos e bufou. Não podia acreditar que ninguém vira a marca no seu tornozelo. Estava ali, como se uma mão de dedos muito finos tivesse apertado com força a carne e a pele branca, marcando uma praga vermelha e arroxeada contornando o tornozelo. Coçou de leve o lugar. Abriu os olhos e revirou os olhos, incrédula e debochada: o tornozelo estava ali, branco e virgem de qualquer marca, como sempre.
-É, realmente estou ficando louca..._murmurou a menina, enquanto tirava a blusa de frio azul com estrelas brancas, atirando-a em um canto qualquer. Afofou de leve os travesseiros e deitou derrotada. Fechou os olhos e mergulhou em um sono profundo e merecido. Já fazia quase um dia inteiro que ela nem ao menos cochilava. Começou com um leve relaxamento nos músculos, as pálpebras pesadas, o escuro tomando conta e o vazio na mente. Dormiu.
Ao abrir os olhos já era noite. Os ponteiros no relógio por cima da porta marcavam 22:37h e o quarto estava emergido em trevas. Bocejou espreguiçando-se e levantou da cama. Estava até um pouco contente por ter dormido por algumas horas e não ter sonhado com nada, por não ter nenhuma mão ossuda ou boca maldita visitando seus sonhos. Abriu a porta do quarto e foi recebida pela luz tímida que vinha do andar de baixo, onde o barulho do telejornal que o pai assistia na televisão e o tamborilar metálico dos potes e panelas na cozinha, onde provavelmente sua mãe orquestrava uma refeição, vinham lhe agraciar os ouvidos semidespertos. Arrastou os pés e pôs-se a caminhar escada abaixo.
Passou pela figura do pai, entretido em alguma notícia ruidosa e foi direto para a cozinha. A mãe estava de costas, cortando alguma coisa quando a menina abriu a geladeira e pegou a garrafa de leite. Ao virar, viu a mãe com os olhos lacrimosos e uma pilha de cebolas cortadas sobre a mesa. A mesma virou-se de novo, sorrindo sem graça e voltando ao trabalho.
-Dormiu bem, minha filha?_perguntou a mãe em meio aos golpes lentos e precisos da faca amolada. O cheiro forte do tempero sendo refogado no molho de tomate preenchia o ar, enquanto o barulho da TV retumbava baixo pela porta. A menina encheu um copo com o líquido branco e manchou-o com um pouco do marrom do achocolatado.
-Por incrível que pareça sim... não tive nenhum sonho ou pesadelo, só dormi._ Virou quase a metade do conteúdo do copo em alguns poucos goles e sentou-se na cadeira vermelha perto da bancada da cozinha. Mal colocou o copo no mármore frio e escuro e recuou num berro agudo. A mãe havia virado sorridente para a filha, os cabelos negros da franja caindo sob os olhos e as mãos negras e ossudas, finas feito garras estavam ocupando a ponta dos braços da mãe. O negrume que escorria dos pulsos subia em voltas lentas e já havia transformado mais da metade do braço na extensão negra, fina e endurecida que a garota tanto conhecia dos seus pesadelos. Correu para a sala topando com o pai de pé junto ao braço do sofá. Gritou novamente, já banhando as bochechas com lágrimas pesadas e salgadas: o rosto do pai jazia em um sorriso cortado e cheio de dentes pontiagudos, com um olho arredondado e sombrio vagando sozinho pela extensão do rosto disforme e repleto de ébano. Mãos firmes a agarraram pelas costas, enquanto o pescoço do pai se tornava uma extensão maligna e longa, serpentando através do espaço que os separava e pairando sob seu rosto tomado pelo susto e completamente possuído pelo horror. A boca começou a se abrir em um novo sorriso de escárnio...
Acordou suada e ofegante na cama bagunçada. Havia chutado as cobertas pelo quarto, os travesseiros estavam espalhados e metade da colcha estava enrolada em seu corpo. A testa pingava gostas de suor frio, os cabelos eriçados caiam sob a face muito pálida da menina e o corpo inteiro estava tomado de por uma tremedeira sem fim. Respirou forte pela boca e arrastou-se como pode pela cama, até tocar os pés trêmulos e vacilantes no tapete bonina e fofo que cobria parte do quarto. A porta estava entreaberta e uma luz fraca vinha do andar de baixo. Abriu temerosa a porta e espiou pelo corredor. A casa continuava escura, apenas desperta pela luzinha fraca e amarelada que vinha da sala.
-Mãe? Pai!_chamou suplicante pelos pais, sem ouvir resposta alguma. Sentiu que alguém a observava do quarto dos pais, vizinho ao seu. Olhou para o lado apenas para vislumbrar o rosto retorcido com a boca escancarando um sorriso maligno e pontudo, vindo a toda velocidade em sua direção, com as muitas mãos de sombra percorrendo o corredor atrás da figura maldita e sem corpo...
Acordou novamente, em meio a gritos e mais suor e mais tremor. Os pais a acalentavam na cama com mãos macias e conhecidas, o pai preocupado e a mãe chorosa. Afagaram os cabelos da menina enquanto ela se agarrava a eles como um náufrago a um pedaço flutuante de madeira na imensidão do mar frio. O rosto estava entrecortado por rios de lágrimas, o corpo era um terremoto sem fim, os olhos perdidos e estatelados e o medo tatuado em cada célula do seu corpo... não conseguiu nem ao menos fechar os olhos pelo resto da noite. O relógio tiquetaquou 00:13h. E ela acordada até os primeiros raios de sol.

 ~ Continua

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