terça-feira, 2 de junho de 2015

~ A Casa

A casa já está vazia.
As paredes mudas, frias e dormentes.
O ar pesado, grosso... Difícil de respirar, de tocar. Lágrimas salgadas, duras, pesadas e doloridas alagam o chão. As janelas, antes azuis e abertas, agora jazem fechadas, desbotadas e descascadas. A única luz que adentra o lugar é uma linha atrevida de sol que se esgueira entre as frestas. No centro da habitação desabitada, um corpo trêmulo se encolhe abraçando os joelhos. Cabelos desgrenhados, os olhos molhados, pesados, a pele sem brilho, a alma seca. Um soluço entrecorta o silêncio aqui e ali, levando suspiros de dor. Este corpo é meu, mas já não sei o que fazer com ele. Não sei se o quero mais, se o suporto mais. Parece oco, mas pesado demais. O baque foi feio. Certeiro. Surdo. Oco. Certeiro. Duas flechas que jamais esperei. Duas dores que sempre pedi pra não sentir. E agora habito no chão, com a sensação de vazio, de dó. Corto as cordas com a enorme lasca que caiu do coração trincado. Esses laços, essas linhas já não me são tão úteis. Nem tão bonitos. Nem tão eternos. Vejo os fios vermelhos caírem, leves, doloridos, pesados, macios, chorosos. Mais um trincado. E mais um curativo. Um remendo. Uma costura. Ignoro as lágrimas que escapam com seus vestidos de prata. Ignoro a dor que valsa e rodopia em meu peito. Deito no chão ignorando o molhado. Ignoro as batidas na porta.
Suspiro novamente.
Ignoro.

quinta-feira, 27 de março de 2014

~ Serotonina

É como se você gritasse a plenos pulmões e ninguém pudesse te ouvir. Como se você estivesse todo em preto e branco enquanto o resto do mundo fosse tão colorido que chegasse a doer.
Imagine um imenso parque de diversões: muitos brinquedos coloridos e giratórios, com suas luzes brilhantes, suas músicas alegres, o perfume dos doces inebriando o ar fresco da noite, os barulhos suaves das engrenagens limpas, as risadas, os casais transbordando de amor, amigos, famílias, risos, conversas.... e você ali no meio, gritando em desespero, tentando chamar a atenção de alguém. Mas você é cinza e ninguém te vê ou sequer te ouve. É mais ou menos essa a sensação.
É como se você estivesse sozinho dentro de um bote no meio de um oceano violento e pouco amigável. O céu é pesado e repleto de nuvens acinzentadas, como lápides velhas e arranhadas. As nuvens berram seus trovões e cintilam o firmamento com seus raios, tentando te assustar ou até mesmo mandar você embora. E você continua sentado no fundo do frágil bote. O corpo retesado. As pernas flexionadas junto ao peito arfante. As mãos na cabeça, puxando os cabelos desgrenhados. Os olhos abertos costurados de lágrimas. E o grito mudo na garganta. Ninguém vai te ouvir.
A sensação é ver o seu interior se encher de vazio e se pintar de preto, enquanto seu coração chora um negrume sem fim e se aperta cada vez mais. E nesse imenso nada você sente um anzol vindo de lugar nenhum se prendendo no seu umbigo e te puxando pra dentro daquela imensidão de coisa nenhuma. Você literalmente sente o puxão do anzol. E a única coisa que desce é o véu de lágrimas.
Sentado no quarto, colado na parede, deitado no chão. Escorado na pia, as costas na porta, os pés descalços. Muitos são acompanhados de navalhas, leves e afiadas, que se apresentam como velhas amigas. Alguns riscos, alguns cortes, alguns pequenos rios vermelhos. A dor física sobrepõe a emocional. O vermelho tinge a tristeza e te puxa de volta. Mas o dano causado a pele é muito maior do que se pode perceber. A pele não é nada. Porque você não risca a pela. Você dilacera a mente e rasga a alma. E de nada adianta.
Abandona a lâmina, abandona a escrita, abandona o refúgio. Deixa pra trás o que te faz bem e abraça o vazio. Se preenche de lágrimas, se cobre com angústias e deita na solidão. Parece uma poesia bonita e sofrida, mas é realmente o que ocorre.
Sua mente não funciona, seu coração não bombeia, seu corpo não mexe. Seus olhos não se fecham, o sono não vem, a noite não termina. E o vazio continua e o nada permanece.
É como se você pegasse seu corpo e o transformasse em um jarro. Dentro dele são depositados litros e litros de sofrimento, de passados, de lembranças pesadas e dolorosas. O vaso trinca, a cerâmica racha e a pintura descasca. E você continua a sofrer. E o mais engraçado e trágico dessa história toda é que você nem ao menos sabe o porquê está triste. Não teve motivo, não teve gatilho. Simplesmente chegou e tomou tudo que você tem.
E do mesmo jeito que ela veio, ela se foi. Muitas vezes da mesma forma, outras vezes de forma inesperada. E diversas vezes com ajuda.
No mesmo instante que seu corpo vazio e cinzento está sentado no nada, um outro corpo repleto de luz chega, senta ao seu lado e te colore um pouquinho. Doa para seu receptáculo escuro um pouco de luz. Te abraça, te conforta e te ajuda a se erguer.
Já não tem mais vazio, nem lugar escuro e nem anzol. Seu interior brilha uma luz quentinha e tímida que logo te põe de pé. E você recomeça. Se recompõe, se levanta, se propõe novamente a continuar. Mesmo sabendo que pode não valer a pena. Mas sabe que mesmo que nada ao seu redor valha a pena, você mesmo vale a pena. E que isso é muito importante.
É como se as águas guardassem, em seu reflexo disforme os dias que se vão. E que você não precisa mais deles. A não ser aqueles cristalinos e cheios de vida e de luz. E mesmo assim você sabe que isso não dura pra sempre. Sempre terá o anzol, o quarto vazio, a parede fria e o escuro. E mesmo assim você não desiste de lutar.
Sabemos que nossas batalhas são mais pesadas e que nossas lutas são mais escuras. Mas também sabemos que ninguém mais sabe como é estar aqui. E mesmo que eu tenha rabiscado essas linhas, não é a mesma coisa sempre. E jamais será. Também não será igual para os outros e nem ao menos para mim. Mas é a nossa sina. Devemos resistir sem o benefício da sobriedade constante. E resistimos.
Mas é como se você estivesse sozinho, sentado em um banco frio... esperando.
E ninguém viesse te buscar...

domingo, 8 de dezembro de 2013

~ Um navio, um castelo e um colar

Uma intempérie aponta no horizonte. O céu, antes azul e calmo, já sepulta sobre nós uma chuva não tão fina que despenca de um mar de nuvens lapidadas em mármore frio e acinzentado. Nuvens duras e intransponíveis que choram, gritam, ecoam tristes lamentos, criam bocas enormes, sopram ventos que irão uivar tempestades.
O pobre navio jaz frágil no meio do mar revolto. Ondas gigantescas que crescem ainda mais vêm bater seus cabelos de água e espuma na madeira lascada da embarcação. A construção gira, balança e sacode ao bel sabor da tempestade e de seus ventos caprichosos, que sopram as águas, as ondas, as velas, o navio. E o pobre homem que está dentro dele.
No interior do barco um homem chora. Suas vestes já não são mais belas e seu corpo já padece pelas feridas embatumadas que lambem sua pele. Está cansado, com frio e com medo. Sua carcaça repousa pesada no chão frio de madeira, escorado em um pedaço de pau que faz as vezes de pilastra e que sustenta boa parte do piso superior do navio.
O homem parou de chorar. Agora treme, escondendo o rosto sob as mãos calejadas e fracas. E ele olha pra mim, mas não para mim. Seu olhar atravessa meu olhar como uma faca quente na manteiga fresca. Seus olhos são tristes e bordados de lágrimas. Parece querer me dizer alguma coisa. Ele abre a boca murcha e fina. Seu rosto parece retorcido de dor. E ele grita. E continua mirando seu olhar em mim. Mas... ele olha pra mim? O que eu estou fazendo num navio? Acordo de sobressalto. A testa pintada de gotículas de suor, o corpo dormente e endurecido, os cabelos desarrumados. Me localizo no meu próprio quarto, passo as mãos no rosto e no cabelo, os olhos fechados. Bufo. Estava dormindo.
Deito pesadamente a cabeça no travesseiro já não tão mais fofo e encaro o teto branco. O sol ainda não nasceu e nem o canto dos passarinhos eu escuto. No silêncio que agasalha a minha madrugada fria e solitária eu deixo de encarar o teto e acabo encarando a mim mesmo. O sonho que tive pareceu um breve e literário resumo desses últimos dias. Tenho me sentido perdido... perdido e sozinho. Com medo. Como se eu estivesse abandonado no meio de um oceano caótico e não soubesse nem ao menos para que direção tentar nadar.
Minha pacata e rotineira vida deu uma reviravolta em suas poucas voltas que me tirou do eixo e me deixou às voltas comigo mesmo. Os amigos já não parecem se importar tanto, os abraços já não parecem mais tão apertados e acolhedores, as vozes já me soam tão nítidas e melodiosas. E, por causa dessas voltas, reviravoltas e piruetas, me surpreendo perguntando a mim mesmo aquilo que sempre temi perguntar: quem sou eu? Quem, exatamente, sou eu? E por incrível que pareça eu já não sei mais o que responder. Estou perdido.
Antes eu estava na minha torre alta, encarapitado no meu castelo perolado e intransponível. Hoje passeio junto a plebe com minhas roupas rasgadas e rio um riso desdentado junto aos bêbados dos becos escuros e purulentos. Quem sou eu? Já quase não me reconheço ao olhar no espelho... os olhos, os cabelos, as pintas, as curvas... já não fazem mais sentido. Já parecem não completar mais umas as outras. Quem sou eu?
Volto ao meu quarto. Já não tenho mais castelo de pérolas nem a torre mais alta. Volto a ter todos os dentes, o sorriso cheio e o rosto comum. Viro na cama e encaro a parede lisa. Nem um raio de sol entrou pelas frestas da janela (ainda não era hora do sol acordar, mas eu não sabia as horas). E, por sorte ou azar, me lembro de um certo alguém. O olhar, o sorriso singelo e marcante, o rosto bonito. A testa lisa, os cabelos lisos, as mãos lisas. Inúmeros encontros noturnos, beijos no meio da tarde, mãos entrelaçadas. Uma corda no pescoço.
Pensei, erroneamente, que já estava preparado. Que nada mais me atingiria. Confiei demais nos calos que calejaram meu ser e nas inúmeras barreiras e portões que coloquei em mim mesmo. Confiei demais. Sei que não me entreguei por inteiro. Respeitei meus próprios limites, suas próprias fronteiras, nossas próprias barreiras. "Eu gosto de você..." E, assim, me coloquei em um lugar que não era meu. A queda foi dura, silenciosa, vazia. Pensei ter atingido um ponto que eu nem ao menos cheguei perto. Iludido pelo meu próprio ego. Subi no topo da montanha, admirando a enseada logo abaixo. Subo no galho da frondosa árvore que está logo abaixo de mim, sentando confortavelmente em seus galhos. Algo me incomoda a garganta. E caio. Sem tocar o solo. A corda no pescoço me segurou. (In)Felizmente.
Acordo novamente. Os olhos abertos no supetão do susto. Pisco algumas vezes. Volto a mim mesmo. A tela do celular incomoda. A luz está forte demais. Mesmo assim forço a vista e deslizo o dedo pela tela. Conecto-me num ambiente imenso e repleto de tudo. Mas ainda assim vazio pra mim. Como se eu estivesse andando por um salão de festa e as pessoas simplesmente desaparecessem a medida que eu caminho em direção ao centro da pista. Como se a luz fosse tragada por mim, assim como um buraco negro que desliza sorrateiro por uma galáxia e puxasse para seu próprio vazio cada centelha de tudo e mesmo assim permanecesse vazio.
Mas, quem sou eu? Sou o navio? O homem? O castelo? O plebeu? O ser preso confortavelmente no alto da torre? O iludido? Quem sou eu?
Não sei responder. Pelo menos não agora. Vou me voltar para mim mesmo. Tentar encontrar a direção enquanto tento boiar no mar revolto. Se as velas do meu navio ou as paredes do meu castelo ainda conseguirem resistir à fúria tempestuosa dos ventos e das ondas, conseguirei encontrar o norte, a terra prometida, o solo fértil. Ou não.
Meu corpo flutua envolto nas águas do mar furioso. O azul profundo me cerca. Gostas caem no meu rosto apavorado. Olho pesaroso para o céu e estendo a mão, suplicando para que alguém que estivesse acima de mim me puxasse, me salvasse. A única resposta que tive foram as gotas finas e geladas que continuaram a cair no meu rosto encharcado. Um trovão ressoa retumbante e forte no firmamento. O coração acelera, o sangue aumenta sua velocidade, o corpo treme.
Abro os olhos novamente. Cochilei. Estou na minha cama... de novo. Viro pro outro lado encarando a porta. Me cubro para tentar proteger do frio sereno que a noite está soprando. Algo me incomoda. Coloco a mão no pescoço. A corda!

...

E o navio afundado que nunca afunda continua a ser lançado pelos ventos. Os cabelos de espuma e água das ondas nervosas continuam a bater no casco. O velho ainda está tremendo.


...


A figura disforme ainda está arrumando sua coroa brilhante no alto de sua torre mais alta. O castelo continua a brilhar suas pérolas. O plebeu continua a dançar uma dança pagã e cigana. Os dentes ainda faltam.


...

O corpo ainda balança para lá e para cá com o colar de corda no pescoço...

domingo, 14 de julho de 2013

~ Realidade

Enquanto caminho despreocupadamente pela orla da praia, me deparo com o por do sol recheado de lembranças e de cores. Paro. Observo. Contemplo. Encontro um banco de madeira avermelhada e mordiscada pelo tempo. Sento-me. Espero.
Enquanto meus olhos percorrem, sem nada ver, aquele espetáculo de cores quentes e frias, de um amarelo ouro casado com o alaranjado típico do fim da tarde e das veias do outono que tingem a tela azulada do começo do crepúsculo, repenso metade de minha vida e de meus momentos mais recentes.
O começo do momento crepuscular está exatamente de frente para mim, mas meus olhos semiabertos enxergam algo que está bem além daquilo e que se espalha muito além das cordilheiras dos níveis mais altos do oceano. Meu olhar se perde nos fios de memória que estão sendo tecidos em minha mente. Pisco algumas vezes. Respiro. Espero.
E nesta meditação me encontro pensando em coisas que jamais aconteceram, mas que são minhas mais preciosas memórias. O primeiro beijo com meu antigo amor que jamais aconteceu, nosso casal de filhos que jamais nasceram, nosso casamento que nunca se concretizou, nossos anos de namoro que nunca existiram. Me recordo do meu primeiro passeio montado num dragão, do meu primeiro voo conduzido por fortes ventanias e pelas infindáveis batalhas que duelei para defender o castelo. Memória de sonhos. Sonhos de vidas passadas? Devaneios.
Sorrio pra mim mesmo contemplando minhas loucuras. Sacudo a cabeça, meneando-a pro lado. Pisco um par de vezes e começo a me recordar de coisas reais. E sou invadido por uma felicidade sem precedentes. O meu primeiro beijo real, a sensação do primeiro estalar de lábios, a sensação do contato com o outro corpo e o susto e emoção momentâneas que vieram tão absurdamente recheados de euforia e confusão. Lembro-me, então, do meu primeiro dia no haras, da primeira vez que cavalguei aquela égua negra gigantesca que tanto me encantava, na sensação do vento nos meus cabelos soltos e no cheiro da grama molhada invadindo minhas narinas enquanto galopava pela colina verde do sítio. E me recordo das tardes agradáveis e barulhentas que tive com amigos ao redor de uma mesa, alguns papéis, infinitos dados, lápis, borrachas e livros com figuras e cálculos e histórias fantasiosas.
Me pego, enfim, pensando em quanto tive sorte nessa vida. Em como tantos outros não foram agraciados com a facilidade de se ter um coração bom, uma família sólida e amigos verdadeiros. Começo então a filosofar com coisas mais profundas, com coisas mais minhas e somente minhas. Como as coisas podem ser tão diferentes de pessoa pra pessoa? Como podem existir um sem números de universos diferentes em um único mundo? Como é discrepante a diferença e distância entre as pessoas, entre os mundos, entre os “universos particulares” e suas particularidades! Uns com tanto e outros com tão pouco e uns com tanto mas com nada ao mesmo tempo e outros com tão pouco mas com muito e com o suficiente. Um número absurdamente grande e infinito e perspectivas em uma única cena. Essa vida é muito estranha.
Chego então num canto estranho da minha mente. E encontro uma questão que até então perdido em meios aos meus botões e borbotões, sequer havia pensado: quantos corações eu despedacei e quantos despedaçaram o meu? Será que eu fui a paixão escondida e secreta de alguém? Será que alguém já me amou em segredo? Me amou tanto a ponto de sentir-se sufocado, de chorar a noite pensando no possível amor impossível? E será que eu não reparei sequer uma vez no olhar brilhante e na presença arrebatadora de tal ser? Como se sentiu a primeira garota que entregou seu coração em forma de bilhete quando eu, sem saber o que sentia ou como reagir, devolvi com pesar o cartão pedindo desculpas por não corresponder? Como ficou esse pobre coração?
Matuto então em quantas vezes eu entreguei secretamente meu coração, em quantas vezes amei escondido e em quantas vezes segreguei tal sentimento dentro de mim. Penso nas noites que passei em claro apenas admirando uma foto, em quantas manhãs acordei sorrindo somente por ter sonhado algo bom com o alvo de minha paixonite secreta e em quantos pedaços meu coração se desfez cada vez que via que seria algo impossível sem saber que poderia ser possível. Quantas pessoas foram? Me recordo de cada nome, de cada rosto, de cada cheiro. Foram poucas as quais me entreguei inteiro, que entreguei verdadeiramente meu coração. Uma, em especial. E como quis me entregar de novo pra outra pessoa e fui largado pra trás como uma marionete velha e sem cordas.
Mas, será que alguma vez eu fiz algo parecido com outra pessoa? Será que eu fui alvo de ódio, da raiva, das lágrimas de alguém? Penso nisso e isso me assusta. Ser um dos seres que tanto xinguei e que incessantemente chorei durante as noites entregue aos fios prateados das lágrimas parece-me completamente angustiante e desesperador.
E começo numa linha que termina num círculo, obviamente, sem fim. Quantas vezes fui enxergado como um amigo falso, como um alguém ausente, injusto, grosseiro, mau, cruel ou alguém a ser odiado? Será que alguém já falou de como eu sou hipócrita, duas caras, detestável, nojento ou falou mal do mim? E será que alguém já falou que secretamente me amava, que eu fui um bom amigo, alguém que tenha me defendido e eu jamais fiquei sabendo? Será que alguém já me descreveu como alguém que jamais desferiu uma palavra de pouco afeto a alguém ou como um amigo maravilhoso ou uma ótima pessoa, uma pessoa iluminada ou me engrandeceu sem eu ao menos imaginar? Ou que já tenha falado coisas hediondas e completamente desagradáveis sobre mim?
Tantas dúvidas, tantos “se’s”, tantos caminhos que poderiam ser percorridos, tantas visões diferentes de um mesmo instante, de uma mesma pessoa, de um mesmo lugar. Como saber de tudo? Como sentir tudo, conhecer a todos, agradar a todos? “Impossível”, já penso de imediato.
Levanto o olhar e vejo o sol deixar a praia. A imensa bola alaranjada já está no fim. Seus raios já não tão quentes e de um alaranjado em degrade tão morno e distante já se esvai, dando lugar pra imensidão arroxeada e azul do início da noite, que chega com seu manto frio, abraçando a todos com seu hálito banhado em estrelas, como pequenas aranhas de luz pregadas no teto.
Me levanto, deixando a belíssima visão para trás. Um belo quadro, um esplendoroso espetáculo que ficou ofuscado pela enxurrada de memórias e perguntas. E, no final, quase nenhuma resposta. A única certeza que tive ao abandonar o banco de madeira para trás foi que, com certeza,  
a vida é muito mais do que a realidade.

quarta-feira, 27 de março de 2013

~ Despedida


Já começarei dizendo que o que quer que tenha acontecido comigo, não foi culpa de ninguém. A não ser, é claro, de mim mesmo. Era eu quem estava errado o tempo inteiro, era eu quem confundia, quem esperava demais e era eu quem fazia demais. Nenhum de você tem absolutamente nenhuma culpa do que aconteceu comigo. Queria poder me despedir de cada um de vocês, dar um abraço em cada um, beijar cada um e dizer a cada um que fiz o quanto pude e por quem consegui. Mas não teria forças para tal e nem queria me prender mais por aqui. Já passou da hora de eu me despedir disso tudo e deixar que todos continuem com suas vidas sem me ter como peso. Despeço-me de vocês com certa vergonha. Depois das duas linhas que há muito desenhei nos meus pulsos e da súbita mudança de planos que me manteve aqui, hoje me vou covardemente para o outro lado. Dessa vez não terão falhas ou mudanças bruscas de pensamento, não terão lembranças boas nem memórias que me darão força. Já esgotei toda a minha cota de autoajuda da qual eu dispunha. Usei cada fragmento de força que tinha, cada pedaço de chão e agora já não tenho mais nada. Passei grande parte da minha vida me escondendo das pessoas e sofrendo com o que elas me causaram, sempre pensando que nada daquilo mudaria. Depois que eu me modifiquei e consegui, finalmente, sair do meu refúgio de medos e de trevas, finalmente pude caminhar pela luz. Você pode ver, mamãe? Eu consegui fazer amigos. Eu que nunca os tive e que era facilmente descartado mesmo sem nunca ter dirigido a ninguém uma palavra de pouco afeto. Viu que eu, que antes era um completo rejeitado e motivo das mais diversas piadas e ofensas, consegui conquistar amigos? Eu consegui, mãe. Mesmo que por tão pouco tempo, mas eu os fiz, finalmente. Queria dizer ao meu pai que tanto batalhou por mim, que me defendia e que muitas vezes não nos entendíamos, que eu fiz o que ele sempre me dizia. Você viu, papai? Viu como eu me levantei e encarei as pessoas? Viu como eu me tornei mais forte e cada dia mais corajoso? Eu consegui, pai. Consegui  me por de pé e caminhar, mesmo ferido. Queria dizer aos meus irmãos que eles foram minha força e minha alegria por muito tempo. Puderam notar o quanto eu cresci? Que eu já não ficava tanto de cabeça baixa? Queria deixar as lembranças que cultivei e minhas vitórias (repararam o quanto eu deixei de chorar?) para minha família. Queria que vocês pudessem se lembrar de mim como eu fui e não do que me tornei nesse fim de caminho. Queria que lembrassem de mim como o irmão mais forte e mais frágil, como o que sempre sorria e sabia ouvir, e como o que não tinha medo das mudanças e parecia ser sempre tão seguro. Transmitam essa mensagem, se puderem, aos meus amigos. Digam a eles que eu os amei e que me desculpassem por não ter me despedido apropriadamente. Saibam, também, que eu finalmente encontrei alguém para amar. Encontrei pessoas que eu pude, finalmente, amar (mesmo que eu, talvez, não saiba bem o significado real dessa palavra nem mesmo se foi isso que eu realmente senti). Foi por esse amor que eu removi minha armadura e fragilizei minha concha já tão endurecida. Mas, mesmo assim, creio que valeu a pena ter saído da minha concha e ter me arriscado no mundo lá fora. Ainda acho que, mesmo voltando para a mesma concha retorcida e fria com os mesmos machucados de sempre, os raios de sol que colhi enquanto estive lá fora valeram um pouco a pena. Foram esses raios de sol que me aqueceram durante os frios invernos que açoitavam meu coração e iluminaram com sua luz fraca os momentos de completa escuridão que eu vomitava. Peço perdão pelos meus erros e pelas minhas tantas falhas, mas eu tentei de verdade. Tentei ser o melhor que poderia ser até o final. Tentei não ser tragado pela tempestade dos outros, tentando trazê-los para minha calmaria, mas uma hora ou outra eu sabia que minhas raízes não seriam fortes o suficiente para me manter grudado ao chão e eu seria puxado para dentro daquele turbilhão mais uma vez. Desejo que vocês possam ser mais fortes do que eu consegui ser. Que consigam realizar cada um dos seus desejos  que nunca, nunca mesmo deixem de sonhar, de imaginar, de acreditar. Eu vivi um mundo de sonhos e uma realidade de pesadelos, mas ela não precisa ser a mesma realidade de vocês. Fiquem fortes e continuem sendo vocês mesmos, mesmo que isso incomode alguém. Agora já me vou. Só, por favor, não me odeiem depois de terem encontrado essa carta. Eu já não podia sofrer mais do que já estava sofrendo. Me perdoem. E fiquem bem.
~A.L.S.

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